Cyber Espaco e Computadores
Mediando Relacoes Humanas - Tópicos para reflexao
(2000)
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Machado, Jorge Alberto S.
Schirmer, César
1. Com o avanco das tecnologias
informaticas de comunicacao, a difusao dos meios e a
reducao de custo proporcionada pela massificacao desses meios, surgiram novas
formas de
interacao humana. O uso generalizado do computador e o revolucionario desenvolvimento
e
expansao das redes (sobretudo da Internet) gerou uma expansao continua rumo
a superacao
das limitacoes tradicionais impostas pelo tempo e pelo espaco. Mais que isso,
pela profusao
das relacoes espaciais na esfera virtual, surgiram as primeiras comunidades
e
consequentemente relacoes espaciais desterritorializadas, prescindentes do contato
humano
direto. Esso espaco nao territorial, passou a ser conhecido como cyberspace
(cyberespaco)
ou mundo virtual, onde um domínio publico gerado por computador cria
um espaco sem
criar, tomar posse ou conquistar um novo territorio.
1.1. O cyberespaco e' um
espaco, ou um meio? Atraves do cyberespaco, as pessoas se
comunicam, e nisso ele pouco se difere dos outros meios de comunicacao. Como
todos as
outras formas de comunicacao, o cyberespaco permite que novas possibilidades
de trocas
simbolicas se realizem. Porem, o cyberespaco nao respeita estritamente o modelo
de
comunicacao emissor-destinatario. O modelo, sem duvida basico, pode ser verificado,
encontrado. Ha de fato uma pessoa que e' o emissor, e outra que e' o receptor.
Mas ha',
tambem, uma transmissao e retransmissao de informacoes, de ideias e de mensagens
que
dao a possibilidade de um retorno da mensagem proximo ao retorno que um jornal
tem dos
seus leitores. Mas, mais que outras formas de comunicacao, no cyberspaco a expressao
simbólica está temporalmente sempre presente: mensagens, sons,
imagens, informacao, nao
há limites de tempo e espaco para a sua existência, e a interacao
é sempre possível. Dentro
das comunidades que frequentam as mesmas paginas, dos grupos que conversam nas
mesmas salas, nas listas que discutem um assunto entre si, forma-se uma especie
de opiniao
publica. Essa opiniao pública esta fisicamente distante, desgarrada e
frequentemente é
desconhecida entre si, mas na dimensao virtual pode-se tornar uma comunidade
engajada,
unida e ativa.
1.2. O cyberespaco nao
e' apenas um meio, mas tem caracteristicas proprias de
comunidades, ao menos de grupos. A distancia entre as pessoas nao impede que
elas
convivam, ao menos em um novo sentido do termo "convivio", que valoriza
a capacidade e
o desejo de cada um de consumir e de produzir signos de acordo com sua propria
vontade
e seus proprios interesses.
2. O desenvolvimento e
transformacao das tecnicas produtivas, pelas expansao e progresso
das modernas tecnologias, associado a notavel expansao do capitalista, causaram
entre
outras consequencias um cambio nas relacoes sociais profundo, onde os vínculos
sociais e
coletivos tiveram sua dinâmica substacialmente alteradas. A competicao
individual, o
anonimato da sociedade moderna (des)fragmentada, e a reformulacao dos vínculos
de
solidariedade dentro da realidade global - que significa também o retorno
das solidariedades
primárias tribais, étnicas e religiosas no plano material -, proporcionaram
os ingredientes que
faltavam para o desenvolvimento da comunidade virtual ou do surgimento da esfera
tecnosocial. O que parecia um simples, novo e eficiente meio de comunicacao
virou uma
necessidade de asceder a uma nova dimensao social, onde a possibilidade de superar
os
limites das relacoes sociais tradicionais de um ambiente competitivo, hostil
e pouco
associativo pode ser superada. O cárater dessa comunicacao se torna mais
interessante a
medida que se tem em conta que no cyberespaco a liberdade de expressao passa
a ser
praticamente total, as relacoes intersociais se transformam e os vínculos
sociais de classe e
origem sao rompidos desaparecendo em absoluto na esfera tecnosocial.
3. Como o endereco e o
maquinario da www sao irrelevantes, enquanto em bom
funcionamento, o cyberespaco da' a impressao de nao ter um referencial geografico,
ou de
nao ter atributos fisicos. Contudo, e' evidente que na pratica ha' locais onde
seu uso e'
praticamente impossivel, e instalacoes fisicas da rede que a tornam inutil para
alguns fins. Há
de se considerar que o acesso ao cyberespaco depende da infarestrutura material
disponível, ou seja dos recursos tecnólogicos que dispoe o usuário
ou a area onde ele está.
Nao e' a mesma coisa visitar um site localizado do Japao estando na California
e visitar o
mesmo site estando na Argentina.
3.1 Pode-se dizer que navegar
no cyberspaco desprovido de recursos informáticos
modernos é mesma coisa que viajar em uma auto-estrada em um veículo
velho. Ou seja,
além de ficar inferiorizado em velocidade, pode-se ficar muitas vezes
no meio do caminho.
Assim é o precário acesso ao mundo virtual a partir de muitos
países e regioes do "Sul".
Portanto a projecao virtual da sociedade na esfera tecnosocial é muitas
vezes a projecao
dos países centrais e das economias mais arrojadas, onde os recursos
nao só mais
modernos, mas muito mais acessíveis.
4. No cyberespaco surge a esfera tecnosocial. Ou seja, é o espaco virtual
gerado e contido
nessa imensa rede computadores onde tem origem a projecao virtual da sociedade
global.
Nessa dimensao atemporal e desterritorializada, o universo das idéias,
sons, imagens e enfim
toda a história humana ou o produto dela se torna potencialmente acessivel
em todas as
"direcoes" (na verdade nao há direcoes exatas, ou de acordo
com o nosso censo comum).
Em tese, tudo que pertence ao mundo real pode pertencer ao mundo virtual. O
mundo
virtual utiliza-se do universo simbólico do mundo real, mas tambem se
serve de uma outra
linguagem propria, atraves de siglas, codigos e abreviacoes, pela qual desenvolve
os meios
que tanto facilitam e arrojam sua dinamica como aprimoram sua capacidade de
projecao do
mundo real.
4.1 Assim o cyberspaco
se desenvolve continuamente projetando mais notavelmente os
produtos da acao humana, a cultura ou a subcultura: seja o conhecimento, a arte,
as
emocoes, as paixoes e a perversoes humanas. Em outras palavras as diferentes
cosmologias
de grupos ou individualidades. Essa esfera tecnosocial e´ constituida
fundamentalmente pela
projecao humana virtual, e ela e' efetivada no conjunto de trocas e intercambios
simbólicos
que se processam atraves dos dominios do espaco virtual, ou seja do chamado
cyberspaco.
4.2 A primeira consequencia
do surgimento e crescente popularizacao do cyberspaco e' a
desmaterializacao das relacoes sociais, agora mediada por máquinas, que
nao
so´prescindem de contato físico, como diferente de outras tecnologias,
sao velozes e nao
necessitam nem sequer da voz humana - se comparadas com o telegrafo ou o telefone
respectivamente. No cyberspaco, pela desterritorializacao e anonimato, as individualidades
podem reconstruir asi proprias, de acordo com as anseios. Na esfera tecno-social
sexo,
origem e raca sao substituidos por uma nova constituicao simbolica, onde a liberdade
da
consciencia individual, livre dos cadeias do realidade física, reconstroi
a si propria de acordo
os anseios e necessidades. As relacoes sociais, enquanto prescindindo de contato
fisico, se
processam, portanto, dessa forma no esfera tecno-social, atraves de personalidaes
tecno-construidas (virtualmente). Nesse aspecto o cyberspaco é revolucionário,
pois a
partir do mesmo universo simbolico do mundo real, permite reconfigurar a expressao
humana idealizada no plano virtual - com as possiveis imbricacoes no real -
descondicionando nesse meio as relacoes sociais de sua expressao fisica e social.
4.3 Outra consequencia
da desmaterializacao das relacoes sociais mediadas por
computadores e' a transcendência das relacoes de poder, subjugadas convencionalmente
pelas relacoes físicas e materiais, fomentando a emancipacao e pulverizacao
do poder. O
poder ideólogico dos oligopólios comunicativos também se
enfraquece, assim como grupos
minoritários alcancam expressao internacional e superam qualquer condicao
de isolamento
geográfico ou limitacao da projecao material.4.1
5. A tecno-sociedade tem
uma face cruel: ela condena ao analfabetismo e a marginalizacao
tecnológica todos que estao fora dela. A cybersociedade é formada
por cidadaos
bem-nutridos, informados e frequentemente com bom poder aquisitivo. Essa sociedade
virtual é essencialmente excludente, pois automaticamente os analfabetos
e miseráveis nao
podem acede-la.Os que estao fora, que já nao existem virtualmente, também
deixam de
existir materialmente para a tecno-sociedade, sem sua projecao virtual. A exclusao
tecnosocial os conduz a maior exclusao social real, pois assim estes ficam alijados
das
transformacoes dos meios produtivos, que exigem cada vez mais o conhecimento
do
instrumental da tecno-sociedade.
6. A esfera tecno-social
atua no mundo real provocando transformacoes nao somente
sociais como também econômicas, pela facilidade que proporciona
ao trânsito dos fluxos
financeiros na rede. Uma crescente economia virtual se desenvolve rapidamente.
A
desterritorializacao e a superacao do espaco real aumentam as possibilidades
enormemente
as possibilidades de negócios. Esses também se desterritorializam
e podem ser exister
somente no plano virtual, ou seja, sem necessidade de manutencao da base física
convencional (loja, escritório, vendedores).
7. A tradicional territorializacao
é substituída pelos circulos linguísticos e culturais no
espaco
virtual, onde a língua passa a ser uma vantagem ou um limite. Ainda que
o inglês seja a língua
"oficial" da tecnosociedade, há a formacao de comunidades linguísticas
específicas, onde
muitas vezes também confluem as identificacoes culturais e de caráter
simbólico.
Fragmentos a serem desenvolvidos:.
7. Consumo. A quantidade
de coisas que podem ser adquiridas atraves do cyberespaco e' ilimitada.
Tudo o que pode ser adquirido atraves do comercio tradicional pode ser adquirido
pelo cyberespaco,
mas o inverso nao e' verdadeiro, pois ha' bens cujo comercio e' inviavel fora
da rede, pois sao tao
especificos que tem relativamente poucos interessados mesmo em escala global.
Fenomenos associados:
freeware, demoware, paginas pessoais.
8. Fim da ilusao do seculo
20 de que a tecnologia substitui coisas como o livro. A tecnosociedade
potencializa a producao e o consumo dos bens tradicionais.
9. Relacoes virtuais sao
vistas com tanta naturalidade como as relacoes imediatas. Fenomeno relacionado:
telefones celulares. (Citei telefone e telegrafos)
10. Desterritorializacao
e consumo de bens de melhor qualidade. exemplos: ler o livro no original, ao
inves de comprar uma traducao, buscar livros usados em sebos de outros paises,
conversa de estudantes
com professores eminentes de faculdades famosas.
11. Fim dos limites eticos
impostos por leis ou por terceiros. exemplos: softwares (bens) que sao
transmitidos para todo o mundo sem nenhum controle, prostituicao virtual.
12. Aspecto englobante
do mundo virtual. Tudo o que pertence ao mundo real pode pertencer a ele.
(vide §4)
13. Nos objetos virtuais,
nao ha mais autenticidade no objeto original do que nas suas copias.
manutencao ilimitada da fidelidade ao original. incorruptibilidade dos bens
virtuais. Eternidade?
14. Esfera do virtual como
a esfera do puramente humano, isto e' do espiritual. Se cada ser humano
deixar uma pagina na rede, em hipotese ela poderia ai permanecer para sempre,
como se o mundo virtual
fosse um ceu onde se encontrassem todas as almas, os mortos ensinando os vivos,
pelas suas proprias
palavras. Potencialidade de uma arqueologia virtual no futuro.
15. O virtual como metafora
do espirito desencarnado, exagero do dualismo entre corpo e alma. Sem os
limites fisicos, o intelecto se realiza totalmente. Comunidade imediata das
mentes, sem problemas de
alimentacao, saude, fusos horarios. Fim do tempo, inicio do puramente imediato:
a eternidade na Terra.
16. Fim da historia?
17. Conflitos civilizacionais
tendo no cyberespaco seu endereco privilegiado. Criacao virtual de uma
verdadeira sociedade sem fronteiras, cosmopolita, sonho dos iluministas (Kant).
Sugestao para a continuacao:
1b.O mundo virtual se serve do mundo real, mas é apenas uma projecao
do mundo real (ou soma das
projecoes)
2b. O mundo virtual é resultado de interpretacoes.