"Don" Carlos Antonio Silva 
(1914-1993)
 



 

Av. Roque Sáenz Peña (Diagonal Norte), Buenos Aires.
(1930)

Argentino de Mendoza, nascido em 1914, registrado como Carlos Antonio Silva, é o pai do autor deste site. Filho de uma pobre jovem indígena, de origem mapuche, chamada Maria Teresa, e um imigrante italiano procedente de Bari (Sr. Guarnieri, comerciante de Mendoza) que não o assumiu - fazendo com que ele tivesse uma vida difícil até a juventude. Ainda criança, saiu de casa, vivendo da coleta de papéis nas ruas e fazendo bicos que apareciam.

Com muito esforço, conseguiu estudar. Formado (1935) em Obras Sanitárias (algo como engenheiro civil, mas com perfil de tecnólogo), viveu e trabalhou em Mendoza e Buenos Aires.

Grande contador de histórias, disse ter lutado boxe entre os 16 e 19 anos, tendo sido campeão amador nacional em sua categoria.

Em Mendoza, acabou se envolvendo no sindicalismo. Criou uma liga de estudantes de Obras Sanitárias e se engajou no apoio ao crescimento do Clube Obras Sanitárias, hoje um dos maiores da Argentina. Aos poucos, passou a desempenhar um papel cada vez mais ativo junto ao movimento sindical.

Atuação política

Como sindicalista, logo estreitou seus laços com o Partido Socialista Argentino, do qual foi dirigente nas décadas de 40 e 50. Chegou a ocupar um dos mais altos postos, o de secretário-geral do partido em Buenos Aires.

Posteriormente, durante a época peronista, o socialismo sofreu um duro golpe, quando parte de sua ideologia foi utilizada por Perón para fortalecer ser partido, tentando cooptar os socialistas dos grêmios e sindicatos. Em oposição a essa prática, muitos dos seus dirigentes foram para a pris
ão. "Seu" Carlos foi mandado para o cárcere duas vezes por Perón – a quem conheceu pessoalmente em audiências e desenvolveu particular antipatia.

Também nutriu aversão aos "milicos" (tanto brasileiros, como argentinos). Estes eram sujeitos favoritos de suas piadas. Dizia que, na prisão, gostava de cantar músicas provocativas para os policiais e a quem quisesse ouvir. Vale dizer que, no tempo de Perón, o regime permitia que os advogados trabalhassem em paz, especialmente quando tratavam daqueles com quem seu governo pressionava para depois poder negociar.


Vinda para o Brasil

Devido à problemas particulares, como a separação da primeira esposa, a frustração com a política e o desejo de buscar novos horizontes, Carlos decide tentar a vida em outro país. Em 1958, com quase 44 anos, junto com um amigo, e parte de malas feitas de Buenos Aires com destino aos Estados Unidos. Levando não muita bagagem, mas incluindo seus livros e discos de tango (ainda lembro de seus vinis de 45 e 78 rotações) pega um navio para Santos, de onde tomaria outro para a Flórida. Mas quis Carlos  antes parar no Brasil, para conhecer o país, as praias e visitar um amigo no interior. Essa decisão mudaria sua vida.

Num encontro casual na rua, conhece, em Tatuí, no interior de S. Paulo, uma mulher 27 anos mais jovem que o viria fazer mudar seus planos e se tornaria sua futura esposa brasileira. Esse encontro o fez abandonar a viagem aos EUA e decidir permanecer aqui. Carlos tentou convencer os pais da moça para deixar levá-la para os EUA. Não teve jeito. Eram pessoas simples e essa hipótese era impensável. Apesar do desespero de seu amigo, ele decide mandar tudo às favas e ficar por aqui.

Algum tempo depois, estava casado e aí começaria uma outra fase de sua vida.

No Brasil, passou a levar uma vida pacata, se afastando da política e, sobretudo, de seu passado. Seus hábitos eram simples. Sua paixão era sua biblioteca e sua oficina em casa. Exerceceu sua profissao em várias empresas de construção civil e numa metalúrgica em Sorocaba (SP), onde viveu por mais de 30 anos. Aposentou-se em 1982, deixando seu último emprego na área de manutenção civil, na antiga Fábrica de Aço Paulista (FAÇO), depois Boliden-Allens. Muito querido pelos seus colegas, era conhecido pelo apelido de "Don Carlos" ou "Don Carlitos".

Fiel às suas origens, simpatizava a esquerda. Mas, as frustrações de seus ideais políticos na Argentina fizeram dele um mero observador dos eventos políticos no Brasil. Era difícil arrancar uma opinião dele, no máximo alguma frase como "milicos hijos de p#ta".

Depois, separado da segunda esposa, viveu sempre com um dos filhos em sua casa. Foi um dos maiores apoiadores da minha banda hardcore/metal "Miséria H". Aqui vale uma observação: quase demoliamos a casa onde morávamos e ele nem se importava. Eram tempos de formação cultural, protestos, lenta abertura política, mas ainda muita repressão policial aos jovens da periferia - anos 80.

Sua inquietação, irreverência e comportamentos inusitados, quase dadaístas, cativavam muitos dos o conheceram - mesmo os que o não compreendiam. Apesar da vizinhança conservadora, no final dos anos 80 nossa casa tornou-se uma usina de criação política para nós, jovens cabeludos e tatuados da periferia de uma cidade industrial. Com o beneplácito do seu "Don" Carlos, tínhamos uma área livre, onde os colegas do cenário underground se reuniam para tocar, conversar, criar fanzines... - tempos fundamentais para minha formação como cidadão, sociólogo e professor. (Eita, veinho gente boa!)

Argentino até o fim

Como um bom argentino, nunca quis adquirir a nacionalidade brasileira, ainda que isso lhe custasse abrir mão de muitos benefícios. Altivo, resistente e saudosista, criticou o país que o adotou até os seus últimos dias, mesmo enfrentando a ferrenha oposição dos brasileiríssimos filhos.

Nunca aceitou a velhice. Para ele, era impensável depender de alguém. Nao admitia a idéia de um dia ir a um asilo ou ficar preso a uma cama. Desde 1982, separado, orgulhava-se de aparentar muito menos idade do que tinha, de ser forte como um touro e ter namoradas muito mais jovens.




Plaza de Mayo, Buenos Aires, 1936


S. Paulo, 1967.


Don Carlos pendura as chuteiras

No seu último ano de vida, cansado e com a saúde já não tão forte, gastou o resto de sua vida o quanto pôde até falecer devido a um problema quase súbito, em setembro de 1993.

Antes de seu velório, como um bom filho, após uma consulta rápida junto a minha irmã, fechei subitamente o seu caixão e quebrei os lacres para que o mesmo nunca mais pudesse ser aberto. No lugar, coloquei um quadro com sua foto, do tempo das "peleas callejeras" de pugilista amador em Buenos Aires. Asim, no lugar de um velho cansado, via-se um jovem com um sorriso malicioso estampado no rosto e um olhar fixo e provocador para as velhas corocas da vizinhança e amigos da família que esperavam ver um defunto derrotado. Assim se despedia ele, da forma como sempre desejou ser lembrado.

Seu enterro foi simples, sem maiores honras fúnebres, mas deixando imensas saudades em quem o conheceu.

Foi esse velinho que me insinou, com toda a sua irreverência, a enfrentar o establishment e a defender com firmeza as verdades que carregamos no coração.

Texto: Jorge Alberto Silva Machado